quarta-feira, 29 de maio de 2019

BLACK MIRROR - "Hang The DJ"

À falta de publicações sobre séries, resolvo debruçar-me sobre aquela que tem a qualidade de tornar cada episódio digno de análise singular: Black Mirror, do disruptor Charlie Brooker. Poderia estar aqui a tentar encaixar um conjunto de potenciais adjetivos, e todos eles seriam extremamente redutores para a dimensão deste "acontecimento" televisivo.


Black Mirror apresenta em cada episódio uma história. E em cada história, de forma mais ou menos assustadora, somos confrontados com o lado mais extremado de um infindável número de (im)possibilidades que a evolução nos permite/impede de aceder. Como o próprio nome indica, mostra-nos o "lado negro do vidro" (e pensemos no vidro como figurativo de tudo o que é tecnologia) que é nos dias de hoje um apêndice da espécie humana. E é sempre esta dualidade, este constante questionamento, o inevitável "vestir" das personagens que torna Black Mirror tão especial, tão inovadora, ao nível dos outrora (mas sempre atuais) grandes pensadores do futuro como Aldous Huxley e George Orwell, agora transportado para o pequeno (mas cada vez maior, dada a dimensão de plataformas streaming como é aqui o caso da Netflix) ecrã. 

Mas como comecei por referir, cada episódio merece uma análise própria (como gostaria de pensar que serei capaz de o fazer para mais uns quantos que também o "merecem"... mas a ver). Assim, e sem isenção ou imparcialidade, escrevo sobre aquele que mais me marcou. "HANG THE DJ". Porquê este? Não sei. Nem sempre conseguimos esclarecer com precisão a conexão que estabelecemos com um livro, um quadro, uma música, um filme, ou neste caso, uma das histórias de Black Mirror. Porém, creio que a breve descrição (no spoilers) do episódio poderá ser mais ou menos elucidativa desta preferência (pelo menos para aqueles que conhecem melhor quem escreve deste lado do teclado ;) ) 

Em "Hang The Dj", que diria eu nos apresenta uma possibilidade futura não tão distante do que hoje vivemos, as pessoas não procuram o seu par ideal, a outra metade da laranja, ou outra coisa qualquer romântica que quisermos chamar ao sempre misterioso processo de "interesse-encantamento-paixão-amor". Isso parece até descabido e demasiado trabalhoso. Em vez disso, todos possuem um Sistema dotado de uma "voz-coach" que os informa que está na altura de conhecerem alguém. Hora e local previamente definidos, chegados lá recebem a confirmação de que se trata do "match" definido. Contudo, estes matchs poderão não ser o "par ideal", mas de um conjunto de ligações que se vão estabelecendo (ou impondo) até lhes ser comunicado que irão, finalmente, conhecer o seu par ideal. Assim sendo, logo no início do encontro, os "participantes" podem escolher visualizar simultaneamente no respetivo aplicativo quanto tempo irão estar com a pessoa em questão.

E assim começa a história que tem como protagonistas Amy (Georgina Campbell) e Frank (Joe Cole). Estreantes nestas andanças, e apesar de visivelmente atrapalhados, estabelecem rapidamente uma confortável interação. Embrenhados nesta novidade, resolvem logo ver então quanto tempo "estariam destinados" a "ficar" juntos. O aplicativo dita (apenas) 12 horas. Com espanto (e até alguma notória desilusão) resolvem ainda assim aproveitar essas 12 horas juntos. Não da forma que seria, possivelmente, expectável, até mesmo para Amy e Frank que no final do encontro admitem que quereriam ter ido mais longe. No fim das 12 horas, despedem-se e cada um se dirige para o respetivo veículo que surge para os buscar. 
Depois deste encontro, seguem-se uma série de outros para Amy (maioritariamente de curta duração), menos para Frank (que vive uma relação absolutamente frustrante e castradora durante 1 ano). Mas quis o "aplicativo" que, para o agrado de ambos, se voltassem a encontrar. Já entusiasmados com a possibilidade de estarem juntos, Amy sugere que não recorram à revelação da duração, Frank acede. Tal como seria de prever no primeiro encontro, a relação entre ambos flui naturalmente, começando a desenvolverem-se emoções que vão muito além do entusiasmo e conforto iniciais. Emoções essas que, quase que inevitavelmente, se misturam com inseguranças, com o medo que tudo termine de um momento para o outro. Vencido por elas, Frank recorre ao aplicativo. 5 anos. Mas muito depressa esses 5 passam a 3, os 3 passam a meses, e neste exasperante "Recalibrating" Frank vê o resultado de ter tomado esta decisão sem o conhecimento de Amy, reduzir-lhe a relação a uma desesperante duração de 20 horas.

Desvendar mais sobre o desenrolar do episódio seria estragar por completo a experiência de visualizá-lo. Perante a história de Amy e Frank, levantam-se naturais questões sobre o "poder" das aplicações em "interligarem" pessoas, em encontrar-lhes o "match". Poderão acertar? Quando supostamente "não acertam", impõe a sua duração. Como se vive uma relação que se sabe à partida que vai terminar? É isso determinado pela longevidade revelada? Temos de permanecer com alguém com quem sabemos não ter futuro? Onde estará o livre arbítrio neste futuro que nos é apresentado? Onde ficam os sentimentos depois de nos termos envolvido com alguém e algo externo impõe um fim, mesmo que isso vá contra o que de facto desejamos?

"Hang The DJ" foi, para mim, completamente arrebatador. Pela história, pelo final, ainda por cima abrilhantado pelos sempre inebriantes Sigur-Rós, que brindam o mesmo com um tema tremendo, composto especificamente para esta história: "End". 




Frank:: Well I learned what it's like to co-habit with someone I despise, is that useful for the system?
Coach: Everything happens for a reason.


Fica a dica. Mas sobretudo, vejam Black Mirror. Vale tanto a pena!!!

Sem comentários:

Enviar um comentário